Sábado, 7 de Abril de 2007

UNI pelo José Adelino Maltez

Da questão da Independente ao fundo da questão

 

Nunca julguei que os profissionais de comunicação ao serviço do Primeiro-Ministro e do governo a que chegámos se enredassem nesta teia de gatos e ratos, em que acabou por tornar-se o processo da UNI, desencadeado em 2005 por um homem só, António Balbino Caldeira, licenciado em Relações Internacionais pelo ISCSP. Nunca julguei que o problema mais bicudo que tem arranhado o ilustre ministro da ciência acabasse por ser um desses cursos de papel e lápis das universidades lusitanas, não das vilipendiadas ciências sociais, mas antes das superciências ditas exactas, precisamente o da área de licenciatura do senhor ministro da ciência e do senhor chefe do governo: a engenharia.

Aqueles que lavavam as mão como Pilatos face aos cogumelos universitários já não conseguem que o velho regime das notas oficiosas e das promessas de futuros inquéritos e inspecções, hierarquicamente dependentes de suas excelências ministeriais, consiga deter a ânsia de procura de verdade da blogosfera e da chamada liberdade de imprensa. No dia seguinte, há sempre um "Diário de Notícias" que nos explique que o Reitor e Professor Doutor Jorge Roberto é um excelente funcionário da Caixa Geral de Depósito há 25 anos e que apenas concluiu no passado mês de Setembro o seu doutoramento em Comunicação e Documentação na Universidade da Extremadura, em Badajoz.

Pouco me interessa que ele, na CGD, esteja na dependência do licenciado na UNI Armando Vara. Interessa-me muito mais dizer que a minha ideia de universidade portuguesa implica uma muito maior exigência. De nada vale que uma qualquer inspecção venha dizer que, afinal, já estão arquivados, por inexistência de infracção, quatro dos cinco processos abertos por supeita de ilícito quanto aos sinais de trânsito no interior do parque de estacionamento da universidade A ou B.
E de nada vale que se faça uma solena nomeação de Maria José Morgado como futura inspectora-geral do ensino superior.

Interessa muito mais denunciar o ambiente de conúbio entre a partidocracia, as universidades ditas privadas e os financiadores das instalações das mesmas. Quando ilustres membros do governo Guterres, para completarem as respectivas licenciaturas, entraram em contacto directo com uma universidade dita privada, eles deveriam saber que estavam a entrar num domínio onde poderiam ser instrumentalizados por aquilo que em português corrente se chama cunha institucional. Estavam a entrar num reino sem rei nem roque qualquer universidade privada praticava, chamando para docentes deputados e partidocratas, ansiosos por um cartão de visitas que lhes desse o título de professores do ensino superior, porque, lançando esta semente, um qualquer reitor poderia, amanhã, contar com um deles como decisor, colega ou dependente do decisor.


Qualquer investigação jornalística pode correr todas as universidades em causa e encontrar inúmeros exemplos deste hábito lusitano, tanto nas privadas que se pretendiam publicizar, como nas públicas que, entretanto, se foram privatizando, para que todas correspondessem a esta feira de vaidades, para que todas se transformassem neste baixo nível das chamadas escolas de regime, sujeitas ao patrimonialismo da encomendação feudal. Basta passarmos os olhos pela biografia oficial de inúmeros deputados, actuais e passados, e pedirmos que nos indiquem o momento e causa dos convites que os levaram a "professores universitários". Edeste processo não se livram os próprios avaliadores e avaliadores primazes.


Basta recordarmos como Paulo Portas e Santana Lopes acabaram por ser nomeados directores de um centro de sondagens e passarmos os olhos pela descida ao mundo universitário e politécnico de alguns jornalistas de nomeada, pois o conúbio passou da partidocracia a jornaladocracia, avançando recentemente para grandes companhias, susceptíveis de patrocínio. Nenhum partido político consegue escapar à trama e, por isso, até se compreende o silêncio de Marques Mendes sobre a matéria, dado que poderiam surgir investigações sobre a respectiva actuação na Universidade Atlântica, até com recordações de primeiras páginas do "Expresso", onde ele aparecia aliado ao próprio primeiro-ministro actual, em actuações coloquiais universitárias.

Não são precisas grandes procuradoras especialistas em "Apitos Dourados" para fazermos uma lista exaustiva de docentes de privadas ligados ao poder político partidocrático, nem será precisa muita imaginação para detectarmos quais as que estavam mais ligadas a este ou àquele partido. Julgo que, da trama, não escapam os próprios ensinos concordatário e público, onde docentes sem "curriculum" universitário ou de investigação se transformaram em distintos professores.

Retirado do Sobre o tempo que passa.

Está aqui uma boa parte do nosso regime.

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publicado por libertino às 00:53
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